O Mundo Lá Fora · I · O Túmulo Negro

O cultista que ninguém achou

Episódio I · Sessões de 01/07/2023 e 23/07/2023
Noar · D&D 5e · 6h38 de mesa

Documento do mundo

Anotações estratégicas de Silva

Documento · escrito entre a saída de Sembra e a volta da segunda descida

Não escrevo o que aconteceu. Escrevo o que me serve na próxima vez que eu passar pelo mesmo lugar, e o que serve para outro se eu não passar.

Anotação estratégica é isso: onde dá para sumir, por onde se sai, o que vale a pena carregar, quem está armado e quem só parece.

Sembra

Umas quarenta pessoas circulando, cinco delas armadas. Guardei o número porque número de gente armada é a única coisa que decide se um lugar é problema. Cinco não fecham as saídas de um vilarejo sem muro. Se eu fosse pego com a mão onde não devia, eu saía pelo lado do armazém e entrava na mata em quatro passos, e ninguém que eu vi ali corre atrás de alguém dentro do mato.

Anoto sem orgulho e sem intenção. Anoto porque quem não sabe por onde sai não devia entrar.

Aqui não se paga com metal. Se paga com faca pequena, corda, píton, pele, saco de dormir e ponta de flecha. Virote vale mais que flecha, e isso muda o que vale a pena carregar de volta. Virote pesa pouco e compra muito.

Vitória, a do balcão, pregou o manto do cultista aberto no fundo do armazém. Muita gente achou exagero. Não é. Manto de cultista pendurado é recado, e recado numa vila de quarenta pessoas viaja mais rápido que cavalo. Ela sabe o que está fazendo, e é a pessoa daquele vilarejo que eu escutaria primeiro.

Raul pagou o machado adiantado com quatro orelhas, um dedo e um dente. Contei duas vezes porque na primeira achei que tinha contado errado. Uma das orelhas é de elfo. Ele não escondeu, não pediu desculpa, e guardou o resto no cinto. Em outros tempos aquilo seria selvageria e alguém teria dito alguma coisa. Hoje é o preço de um machado, e ninguém na sala levantou a cabeça.

O Dariel virou assunto da vila e não gostou. Também não fez nada para deixar de ser. Homem que reclama de fama e não recusa a bebida que vem com ela está confortável.

Do acordo, antes de sair

Deixei dito na frente de todos, e deixo escrito para não haver mal-entendido depois: eu dou apoio, eu abro caminho, eu vou na frente onde precisar de olho. Eu não morro por ninguém desta expedição.

Nenhum deles se ofendeu. Isso me diz que todos pensam igual e que só um teve o trabalho de dizer em voz alta.

O caminho, rio abaixo

Uma hora andando para o sul, rio abaixo. Anoto o que der para reusar.

Primeiro trecho. Pegada embaralhada e corte em tronco. Quem olha rápido lê briga. Eu li briga. O que me corrigiu não foi olho bom, foi a falta de uma coisa: não tem sangue. Nenhum. Bicho ferido sangra, gente ferida sangra, e mata fechada guarda sangue por dias. Ali não tinha.

Corte limpo, arma muito afiada, na altura do peito, repetido. Isso não é luta, é alguém marcando por onde entra e por onde sai.

Segundo trecho. O rastro sumindo, e é aqui que a mata contou o que interessa. Rastro não some sozinho: aquele foi apagado, e foi apagado mal, do jeito de quem tem pressa e não tem prática. Quem cobre o próprio rastro sabe que nunca cobre inteiro, e por isso escolhe qual pedaço cobrir. Aquele escolheu o pedaço errado.

Anoto como conclusão minha e não como fato: quem passou por ali fugiu para dentro do mato e não para perto da vila. Ninguém entra na mata fugindo, a não ser que tenha para onde ir lá dentro.

Terceiro trecho. Marca da Kira, pirâmide para os dois lados, recado dela para caçador, avisando bicho abatido ou ferido por perto. Está fresca, então ela andou aqui esta semana. Deixei a minha logo abaixo, do meu jeito, para ela saber que eu estive neste trecho e em que dia. Se um de nós dois sumir nesta região, o outro vai ter por onde começar.

Bom lugar para sumir, e este é o motivo de eu anotar o caminho todo: no meio da subida tem um barranco com raiz exposta, à direita de quem desce. Cabe uma pessoa deitada, some da vista dos dois lados da trilha e tem saída para o alto. Se um dia eu tiver que largar a estrada com pressa, é ali.

A entrada

Pedra redonda de um metro e meio encostada no barranco, tapando a boca de um buraco escorado com madeira de mina. Alavanquei com tronco, o Greed empurrou.

Duas coisas para quem vier depois.

A altura. O teto foi cavado na medida de anão. Eu passo. Quem passa de um e sessenta anda dobrado, e homem dobrado não luta, apanha. Se for descer, desça com besta e deixe arco longo em casa, porque lá dentro não tem espaço para armar arco.

A idade. Aquilo tem um ano, no mínimo. Escorado, sem trilho, feito por quem ia usar muitas vezes e não queria ser visto usando. Perto da boca tem uma letra do alfabeto do culto, gasta a ponto de quase sumir.

Ninguém grava letra de célula em entrada de toca por enfeite. Aquilo é porta de casa de alguém, e a gente entrou pela porta da frente com um tronco.

Quinze minutos de túnel, com trecho de rastejar. Cheiro de coisa morta o caminho inteiro. Anoto também o que isso me custa: túnel apertado é o pior lugar do mundo para quem trabalha saindo de onde não esperam. Ali dentro eu não sou mais silencioso que ninguém, sou só o primeiro a morrer se vier de frente.

O que tem lá dentro, e aqui eu paro de saber

A caverna não é caverna. É uma cúpula oca, do tamanho de um pedaço de vila, com respiro no alto. Tem lápide, tem grade que não tranca nada, e tem um templo de parede esverdeada encostado no fundo.

E tem uma coisa que eu não sei anotar direito, porque anotação é desenho e isto é impressão: aquilo não está dentro da montanha; a montanha é que está em volta daquilo. Não sei dizer como se põe uma montanha em volta de uma coisa. Anoto assim mesmo, porque um dia isso vai importar.

A escrita das lápides é de morte e de necromancia. Nenhum de nós lê.

O cemitério

Do combate eu anoto só o que se aproveita.

Zumbi sai do túmulo da parede. Esqueleto sai da cripta do chão. Cada um vem de onde foi enterrado. Quem souber disso escolhe onde ficar de pé, e quem não souber fica exatamente entre as duas coisas, que foi onde eu estava.

Segunda anotação, e essa é minha vergonha da noite: naquele lugar não existe canto de onde você não seja visto por alguma coisa que já está morta e não pisca. Trabalho meu depende de alguém estar olhando para o lado errado. Ali ninguém olha para o lado errado, porque ali ninguém olha.

O Greed caiu duas vezes e nas duas voltou dizendo a mesma coisa, que ouviu uma risada lá no fundo. Nenhum de nós ouviu nada. Já vi homem desacordado jurar que ouviu a mãe. Anoto assim mesmo, porque ele repetiu igual das duas vezes, e homem que inventa não repete igual.

O baú

Dois baús atrás de uma grade chumbada por fora, com o aço derretido de um lado para soldar no outro. Um não abriu. O outro abriu, e tinha roupa dentro que ninguém identificou no escuro.

E tinha uma fadinha presa. Ela saiu e foi embora.

Escrevo do jeito que foi: uma criatura viva trancada num baú, atrás de uma grade que alguém derreteu aço para fechar, e nós fomos olhar a escada.

Quem tranca uma coisa daquele jeito não está guardando tesouro. Está guardando problema. E problema guardado com esse cuidado costuma ter dono, e dono costuma voltar.

O andar de baixo

Escada de pedra polida, escorada em madeira. Revistei degrau por degrau atrás de armadilha e não achei nenhuma, o que me deixou pior do que se eu tivesse achado. Lugar defendido tem armadilha. Lugar sem armadilha ou não vale a pena defender, ou é defendido por outra coisa.

Os túmulos daquele andar têm nome em língua comum, e nenhum é conhecido. As tochas da parede foram trocadas e acesas havia pouco, e não são mágicas. São tochas.

Isso quer dizer que tem gente viva morando debaixo de um cemitério, e que essa gente sabe que nós descemos. Não dá para descer três lances de escada sem ser ouvido por quem passa ali todo dia.

As sombras

Se alguém só ler um trecho deste caderno, que leia este.

O escuro daquele lugar é diferente. Tocha acesa não ilumina o que devia, e a claridade morre a dois passos da chama. Para o meu trabalho, escuro assim é presente: eu passo por onde os outros precisam de luz e ninguém me acha. Foi o que eu pensei quando entrei.

Só que aquele escuro não é natural, e a mesma coisa que me esconde estava me esperando.

A coisa sai da sua sombra. Não da parede, não do fundo do corredor. Da sombra que a sua própria tocha faz de você no chão. Levanta atrás de você, mais alta do que você, e abraça pelas costas.

Não tira sangue. Tira força. Você não vê ferida nenhuma e mesmo assim vai ficando com o braço em nó, a boca seca, a perna sem responder. Na semana passada eu carregava o meu peso e o de mais um. Hoje eu armo a minha própria besta em duas tentativas.

Se a força acabar de vez, acabou. Não é cair e ser levantado, é morrer, e dizem que dessa não se volta com o que existe por aqui.

O que não serve: virote, e eu gastei virote descobrindo. Entra e sai do outro lado. Tocha atirada nela passa no meio e cai. Fogo é quase nada.

O que serve: luz sagrada. O Hendrik acertou uma e ela encolheu, e quando morreu foi encolhendo até não sobrar.

E a conta: vem uma para cada um que entra na sala, e quem sai parece fazer nascer outra. Anote isso quem for descer: correr piora a sua situação.

Levo daqui uma correção sobre mim mesmo. Eu tinha aprendido que sombra é cobertura. Naquele lugar, sombra é o inimigo usando a minha própria tocha contra mim, e eu fui o primeiro a descobrir isso porque fui o que se encostou nas paredes.

O túmulo do meio

Mármore negro, o dobro dos outros, vela negra queimando sem parar. Do lado de fora, a vida do sujeito esculpida em ordem: menino, guerra, homem feito, velho. Aí a pedra continua contando, e é aí que dá vontade de sair da sala. Ele aparece esquelético, montado num cavalo esquelético, fazendo coisa que fez depois de morto.

O nome está gravado em letra grande, talhada como a punhal. Ninguém lê. O Kami conhece a língua da inscrição de baixo e não conhece o dialeto.

O Dariel não leu e mesmo assim adiantou o que interessa. Ele estudou abissal quando foi iniciado, e aquilo ali não é o abissal dele, é mais velho. Disse na nossa frente que aquela escrita não é dos cultos, que vem de antes deles. Para mim é a única coisa que a noite entregou por inteiro.

Agora a parte que é do meu ofício. Tem uma peça encravada por dentro da pedra, com a pontinha de fora. Passei a mão, testei o vão, tentei pelo ângulo. Não sai puxando. Só sai abrindo, e abrir aquilo é empurrar uma tampa pesada acima da cabeça, o que quer dizer duas pessoas e barulho.

A tampa não está selada. Está pesada, que é outra coisa. Selado é para não abrir; pesado é só para não abrir por acidente.

Não empurramos. Ficou para depois, e ficou combinado que foi decisão, e não esquecimento.

Última anotação

Nós descemos naquele buraco atrás de um velho. Um cultista aposentado, que saiu da ordem, que mora perto da nascente e mexe com o que já não é mais vivo. Era esse o serviço.

Achamos um cemitério que alguém varre, um mausoléu de uma linhagem que ninguém daquela vila reconhece, um cavaleiro que continuou reinando depois de enterrado e uma escrita mais velha que o culto inteiro.

Não achamos o velho.

Ele não estava lá, ou estava e nós passamos do lado. Das duas, a segunda me incomoda mais, e por um motivo só: alguém anda trocando aquelas tochas.

Silva

ladino, floresteiro, de guarda na noite anterior