Pequenas histórias · quinze dias de 2015

O selo que não estourou

Episódio II · 18 de julho de 2015
Terra · 3D&T · 1h57 de mesa

Eu tinha um inimigo naquele campo e ele tinha um nome: Orochi. Não é o mesmo que dizer que eu tinha um adversário. Adversário é qualquer um que esteja do outro lado. Inimigo é escolha, e escolha obriga.

A regra que eu carrego é curta e não admite exceção: quando eu escolho um inimigo, é apenas eu e ele. Se alguém me ajuda contra um homem só, essa pessoa não me fez um favor — me tirou alguma coisa, e passa a ter comigo o mesmo tipo de assunto que eu tinha com ele.

Falei isso em voz alta, naquele dia, mais de uma vez. Não adiantou.

A cúpula

Estávamos no meio da luta havia tempo demais. Eram quatro no começo; um gigante já tinha caído, e sobravam o Devastador e dois Orochi — porque um deles era cópia do outro, e a cópia estava um passo atrás do original em tudo que importa.

Foi quando o Billy Adams se dividiu.

Ele faz isso: separa-se em dois e os dois andam. Um ficou de fora, parado, concentrando. O outro entrou correndo, jogou uma kunai, abriu um clarão, e do clarão nasceu uma cúpula de sombra que fechou por cima do campo inteiro.

Lá dentro não se enxerga. Não é escuridão de noite sem lua; é escuridão de vidro fumê contra o sol. Dá para ver movimento e mais nada. E ela prende — prende inimigo e prende amigo com a mesma indiferença, o que é o defeito de todo poder que resolve rápido demais.

Eu saí antes de ela fechar.

A cobra

Saí porque tinha visto uma cobra ficar de fora.

Ela estava afastada, parada, observando, e tinha a cara do Orochi. Não a forma dele: a cara. Quem já viu isso entende que não existe pergunta a fazer.

Ela deixou que eu a acertasse. Isso eu percebi na hora e não gostei: prendi o corpo com uma kunai, tirei a katana e cortei, e ela não fez nada que uma cobra faria. Queimei o que sobrou porque não queria que restasse coisa nenhuma.

Restou a pele. O corpo secou por dentro enquanto eu olhava, até virar só um invólucro aberto no chão — e no chão, embaixo de onde ela estava, havia um buraco.

Cheirei o ar, esperei, chutei o resto para ter certeza. Não havia nada dentro.

Ela tinha ido embora, e eu tinha queimado uma casca.

O ovo

Voltei a tempo de ver o Orochi levar a flechada.

O arqueiro do grupo puxa a corda e transfere a própria energia para a flecha, e quando ela atravessa, a energia irradia por dentro e abre cortes onde não há ferida. O corpo dele piscou, branco e não branco ao mesmo tempo, coisa de segundos. Foi bonito e foi rápido demais.

Nesse instante o meu inimigo jogou um ovo para trás.

Peguei no ar, antes de tocar o chão. Queimei.

Saíram quatro ou cinco cobrinhas, já em chamas, espalhando-se e crescendo enquanto corriam. Acertei uma kunai em cada. A última cresceu mais que as outras e chegou a pôr a cabeça para fora da sombra antes de travar ali, presa pela borda, com o corpo de um lado e a cabeça do outro.

Se me perguntarem quantas eu matei, direi que não sei. Uma delas eu já tinha matado uma vez.

O que eu não vi

Do outro lado do campo, num lugar que ninguém do grupo alcançou naquele dia, um dos nossos estava amarrado pelas mãos e pelos pés, sendo acordado a tapa.

O homem que estava com ele é conhecido. Cabelo ralo, barba, faquinhas curvas de nada. A gente sabe o nome dele porque profissionais assim fazem questão de que se saiba: o Doutor Sinistro. Ele não mata. Ele abre uma pessoa até ela dizer, e sabe exatamente onde encostar para que o toque acerte o lugar de maior dor que aquele corpo já conheceu.

Ninguém foi buscá-lo. Nem eu.

Eu estava ocupado cumprindo minha regra.

O selo

Quando finalmente ficamos só nós dois, eu fiz a única coisa que eu sabia fazer direito.

Tinha seis selos explosivos comigo — eu tinha dez, gastei dois de luz mais cedo, e os quatro que sobravam não bastavam. Amarrei os seis numa corda. Corri em volta dele enrolando a corda no corpo, apertei, e esvaziei dez bombas de pólvora no chão embaixo dos pés dele até formar um círculo.

Ele estava preso, coberto e parado.

Eu me abaixei, dei um beijinho na testa dele e disse tchau.

E é aqui que a história se recusa a continuar.

Não houve estouro. Não houve corpo, não houve clarão, não houve cheiro de queimado subindo enquanto eu me afastava. Do outro lado do campo o Devastador continuava travado pelo clone do Billy, a cópia do Orochi continuava fugindo para a direita, e o nosso companheiro continuava amarrado com aquele homem e as faquinhas dele.

Fiquei ali, agachado, à espera de uma explosão que nunca veio.

Ainda estou.

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Esta é a gravação mais antiga do acervo, e é a única desta mesa. O personagem que narra não é chamado pelo nome em nenhum momento das duas horas — o que se sabe dele é a regra que ele repete. A luta não termina na fita: a mesa interrompeu o jogo numa discussão sobre uma regra de combate, e a última coisa que se ouve é alguém perguntando se ainda vale a pena continuar narrando. Ninguém voltou a essa mesa.