Pequenas histórias · quinze dias de 2015

Duas ou três são falsas

Episódio I · 24 de julho e 1º de agosto de 2015
Arton · D&D 3.5 / Tormenta · 5h56 de mesa

Documento do mundo

Relatório à milícia de Malpetrim

Documento · entregue ao oficial Tônio no portão sudeste, na manhã seguinte à saída, antes do anoitecer que se seguiu

Ao oficial Tônio, da milícia de Malpetrim.

Redigido por Rastar Murafá, contratado sob acordo de quinze peças de prata semanais, nos termos que a milícia não se responsabiliza por morte de contratado.

Registro pela ordem, sem acrescentar o que não vi.

Da saída. Partimos pelo portão sudeste ao meio da tarde, seguindo a estrada principal. A cerca de meia hora de marcha, a mata se fecha. Ali encontramos galhos partidos em altura de ombro, em volume que não se explica por viajante. Não soube dizer há quanto tempo. Comuniquei ao grupo e seguimos com atenção.

Da emboscada. Ao cair da tarde ouvimos movimento em volta, vindo de mais de uma direção ao mesmo tempo. Isso não é comportamento de assaltante de estrada, que escolhe um lado e uma vítima. É cerco. Três de nós conseguimos cobertura na vegetação; um permaneceu exposto na estrada e recebeu o ataque concentrado.

Eram goblinoides, armados de lança de madeira, funda, adaga e arco. Dois traziam espada longa enferrujada e corcelete de couro, e é este o ponto do relatório que eu peço que o senhor leia duas vezes: espada longa não é arma de assaltante de estrada. É equipamento de coluna. Alguém está armando esta gente, ou alguém já foi despojado por ela.

Abatemos todos os presentes, com exceção de um, que se retirou para sudeste. Não o seguimos, e disto me penitencio.

Do prisioneiro. Um deles sobreviveu ferido. Tentamos preservá-lo para interrogatório. Duas tentativas de socorro foram feitas com perícia insuficiente e o homem morreu em nossas mãos. Assumo a responsabilidade por essa perda, que é maior do que a de qualquer despojo: era a única fonte que teríamos sobre origem, comando e propósito.

Do que ouvimos à noite. Acampados em anel rochoso a leste da estrada, ouvimos deslocamento pesado durante a madrugada, em direção à cidade. Ao tentarmos contorná-lo, viemos a nos posicionar atrás da coluna, e assim a acompanhamos por algum tempo.

Da estimativa. Não conto o que não contei. Vi a primeira linha e estimei em centenas. Pelo tempo que a coluna levou passando, e pelo volume de ruído, a força total é de ordem superior à que qualquer relato anterior desta milícia descreveu. Marcham, não correm. Vêm do sudeste, pela floresta, e sua direção é esta cidade.

Do que não posso provar. Não trago cabeça, prisioneiro nem estandarte. Sei o que isto significa nesta cidade e não peço que se acredite em mim por minha palavra. Peço que se olhe para o estado em que voltou nosso companheiro samurai, que enfrentou quatro deles. Multiplique o senhor mesmo.

Do que solicito. Reitero o pedido, já negado por ser eu novo na corporação: acesso ao armamento. Não peço arma para mim — sou engenheiro e metalúrgico, não combatente. Peço as peças que a milícia tem paradas para que eu as melhore antes do que vem. Registro que fiz este pedido duas vezes e que esta é a segunda ocasião em que ele teria sido útil.

Anexo o traçado da estrada e a marcação do ponto da emboscada.

Rastar Murafá

filho de Rush Murafá, neto de Rush Murafá