A Última Sorte do Mundo · I · O Sonho dos Bandidos

O sonho e a estrada

Episódio I · 26 de agosto de 2018 · duas gravações
Dragonlance · D&D 5e · 9h38 de mesa

Documento do mundo

Primeiro relatório de Witherdun Nuzlaff aos anciãos

Documento · redigido a caminho de Patina

Aos anciãos do conselho, saudações da estrada.

Escrevo do assento de uma carroça que não me pertence, com tinta emprestada e sobre uma tábua que ontem era parte de um barril. Registro os fatos na ordem em que ocorreram, como me foi exigido, e peço que os anciãos releguem o tom ao cansaço e não à impertinência.

Parti de Brasdel na companhia de quatro viajantes. Devo esclarecer, antes que os anciãos concluam o contrário, que não os escolhi. Acordamos juntos numa clareira, os cinco, sem lembrança do dia anterior e com o mesmo sonho na cabeça. Investiguei o fenômeno pelos meios de que dispunha, que eram nenhum, e cheguei ao lugar a que se chega assim. Anotem, portanto, como a primeira coisa nesta viagem que se recusou a fazer sentido: cinco desconhecidos, um sonho só.

Sobre meus companheiros, com a brevidade que merecem e um pouco mais.

Um elfo Kagonesti, de nome Naerys, que luta com lança e desvia flechas no ar com as mãos. Sei o que os anciãos pensam dos silvestres, porque aprendi a pensar o mesmo nesta casa. Registro apenas que o vi aparar um projétil disparado de cima e devolvê-lo ao arqueiro no mesmo gesto, sem pressa e sem comentário, e que passei o resto do dia revisando certezas que eu tinha por antigas e descobri serem apenas herdadas.

Uma clériga de Branchala chamada Zoe, de cabelo cor de brasa, que carrega uma jarra com as cinzas do pai e conta a quem pergunta que ele foi morto por um grifo. Não foi. Ela sabe que não foi. Conta assim mesmo, e conta bem, e é ao ouvi-la que me ocorre a diferença mais incômoda entre nós dois: ela embeleza e admite; eu redijo relatórios.

Um gnomo da floresta, Demoritos, que anda com um corvo e se apresenta como o mais alto de sua vila. Caiu em todos os combates até agora, sem exceção. Levantou em todos, também, e na terceira vez percebi que ninguém à minha volta achava aquilo digno de nota, o que me diz mais sobre este grupo do que qualquer coisa que eu pudesse perguntar.

E um meio-elfo a quem chamam de Morty, vaidoso a um ponto que eu classificaria de excessivo se não estivesse escrevendo estas linhas com a gola suja de fuligem. Falsifica documentos com uma perícia que não se adquire em biblioteca alguma. Observei-o trabalhar à luz de vela, sem pressa, escolhendo a inclinação da letra como quem escolhe uma roupa. Não perguntei onde aprendeu. Ele não ofereceu.

Devo confessar um lapso. Ao equipar-me para a jornada, adquiri o instrumental de estudioso e negligenciei mantimentos. Foi apontado. Repetidamente. Pelos cinco, e uma vez pelo corvo do gnomo, que me olhou de um jeito que não desejo descrever. Peço aos anciãos que registrem o episódio como prova de que a provação começou a produzir humildade, ainda que por vias que eu não teria escolhido, e num prazo mais curto do que o meu orgulho recomendaria.

Passo ao que importa.

Fomos emboscados por um falso posto de pedágio e, ao desfazê-lo, encontramos uma mercadora que se apresentou como Lorena MacMillan e permite que a chamem por diminutivo. Ela caçava aquele bando havia tempo e, ao contrário do que declarou, não caçava ouro. Revistou os mortos atrás de papéis, um a um, com método, e disse diante de nós que não eram aqueles os homens que procurava. Não a corrigi. Não há o que corrigir em quem diz a verdade sobre estar mentindo.

Descemos ao esconderijo deles nas montanhas ao norte, de noite, porque quase todos nós enxergamos no escuro e eles não. O lugar era armadilhado do primeiro degrau ao último cômodo, com mecanismos que exigem tempo, dinheiro e alguém que saiba engenharia. Bandidos de estrada não constroem aquilo. As paredes nos feriram mais do que os homens, o que registro sem orgulho.

Havia um caldeirão numa das salas do fundo, grande o bastante para uma pessoa, com carvão apagado embaixo. Não descreverei o resto. Os anciãos que precisarem do detalhe podem imaginá-lo, e quem imaginar errado terá imaginado melhor.

Numa das celas havia gelo em quantidade e sem causa, conservando dois cadáveres em trajes de gente de posição. Um deles, uma mulher, com anel e um colar de cristal de pontas. Ao retirarmos o colar, o gelo cedeu, e o que estava preso nele se levantou. Foi contido atrás das grades, o que devo ao gnomo, que caiu de novo e a esta altura eu já esperava.

O colar permanece frio ao toque. Ninguém quis ficar com ele durante a noite.

Encerro com o achado que justifica esta carta seguir por mensageiro pago e não pela via comum.

Encontramos mantos com o brasão da lua crescente negra, junto de velas e materiais de ritual. Não preciso explicar aos anciãos o que isso significa, nem há quanto tempo deveria ser impossível. Sob a cama do chefe daquele bando, encontramos ainda fragmentos de um mapa que o fogo não consumiu, marcando cinco pontos nesta província. Um era aquele covil, que deixamos em chamas. Outro fica em Egard, à sombra da capital para onde sigo.

Há um Lorde. O homem que interrogamos não sabia o nome, e tinha mais medo de dizê-lo do que de morrer, o que em minha experiência limitada costuma indicar que o nome é conhecido de quem importa.

Sigo para Elkhorn e para a biblioteca, como me foi ordenado, e não abandonei a provação.

Registro apenas, para que conste, que fui enviado a procurar numa prateleira o conhecimento sobre a junção dos mundos, e que na primeira semana de estrada encontrei gelo que não derrete, um culto que não deveria existir e um mapa desenhado por alguém que sabe o que está fazendo.

Talvez os anciãos tenham me mandado à biblioteca errada.

Witherdun Nuzlaff

da casa dos elfos da Lua, em provação