Eles acordaram às dez da manhã numa clareira, num acampamento que tinham montado e não lembravam de ter montado. Cinco pessoas com dor de cabeça, sem fôlego, e o mesmo sonho na cabeça: um combate contra monstros. Um deles jurava ter morrido lá dentro.
Ninguém sabia dizer o que tinha acontecido na véspera. Sabiam apenas o que estava à frente: tinham saído de Brasdel, cruzado a ponte sobre o rio Vingar, e seguiam para a província de Elkhorn. Quem de fato precisava chegar lá era Witherdun Nuzlaff, o mago, atrás de uma biblioteca. Os outros quatro iam junto.
O café da manhã estabeleceu o tom dos meses seguintes. Nuzlaff descobriu que não tinha comida: escolhera o kit de estudioso e, por algum motivo que ele mesmo não sabia explicar, não comprara mantimentos. Um alto elfo de cento e quinze anos, da principal família dos elfos da Lua, pedindo ração emprestada na primeira manhã de viagem. A mesa nunca deixou ele esquecer.
O pedágio que não existia
Partiram por volta das onze, em marcha lenta para poder se mover em silêncio. Ainda de manhã ouviram uma discussão adiante.
Uma carroça atravessada na estrada, entre colinas. Ao lado, uma tenda. Uma mulher loira, armada de rapieira, discutia com um homem que exigia pedágio numa estrada que não era dele. Havia movimento nas árvores.
Eram cinco. A flecha veio de cima, e Naerys, o monge Kagonesti, aparou o projétil no ar e devolveu no mesmo movimento. Foi o instante em que os bandidos entenderam que tinham escolhido a carroça errada, e a mulher entendeu que aquela briga não era mais dela sozinha.
O resto foi rápido: fogo de Zoe, rajada mística de Mortilantharas, a quem todos chamam de Morty, e a lança de Naerys. Um bandido despencou da árvore. Dois fugiram a cavalo e foram caçados estrada afora, Zoe voando, Naerys em disparada, Morty com um arco élfico emprestado. Um dos cavalos foi acalmado e simplesmente parou. Dos cinco, dois morreram, dois foram estancados a tempo e um foi capturado. Ajoelhado, ele disse a única coisa que importava: eles vão me matar se eu não voltar.
A mulher se apresentou como Lorena MacMillan, e deixou que a chamassem de Loli. Disse ser mercadora de coisas inusitadas, ervas raras trocadas com xamãs da região. Estava atrás daquele bando por conta própria, para cortar o mal pela raiz.
Só que revistou os corpos procurando papéis. E disse, sem explicar: não são eles que eu estou procurando.
O covil
O trato foi simples. Ela oferecia tudo o que houvesse no esconderijo em troca de ajuda, e havia pressa: se os cobradores não voltassem no horário, o pessoal lá dentro desconfiaria e sumiria com o tesouro. Dois dias de carroça rumo às montanhas ao norte, comendo do que caçavam.
Chegaram de noite, de propósito, porque quase todo o grupo enxergava no escuro e os bandidos não. A entrada era uma reentrância entre as pedras, com um alçapão marcado por um pedaço de corda saindo do chão. Lorena conhecia a sequência de batidas que fazia o vigia não dar alarme, e ensinou a cada um. Também avisou que não havia outra saída, e que lá dentro deviam ser pelo menos sete.
Desceram colados no mago, sob a magia que apagava os passos de todos. Névoa sobre a sala iluminada, luz apagada com um gesto, e a emboscada foi deles.
Durou pouco. Um bandido escapou, gritou uma palavra que ecoou pelo covil inteiro, e as paredes começaram a estalar.
O lugar era todo armadilhado. Leques de fogo saindo das tochas, dardos disparados por placas de pressão, uma gaiola que despencava sobre quem a acionasse, um pêndulo de guilhotina, e uma porta de pedra que descia do teto para esmagar o que estivesse embaixo. Naquela noite as paredes feriram o grupo mais do que os donos da casa.
A porta desceu. Martelaram pítons no vão, o mago conjurou uma espada e a plantou em pé como escora, e a pedra travou a um metro e quarenta do chão, rangendo. Do outro lado, Lorena martelava e gritava que aqueles desgraçados não fugiriam dali.
Dentro havia sacos de dormir com duas gemas escondidas em cada um, caixas de mercadoria roubada, barris de cerveja furados vazando pelo chão, madeira e rodas suficientes para montar cinco carroças. E, ao fundo, a parte que ninguém quis comentar: grades, celas, e um caldeirão grande o bastante para uma pessoa, com restos de água avermelhada e carvão apagado embaixo.
O gelo que não era natural
Numa das celas havia gelo espalhado pelo chão, e o lugar não era frio.
Dentro, dois esqueletos antigos, vestidos com capas e roupas refinadas. Não eram pessoas quaisquer. Um deles era de mulher, o vestido rasgado, um anel brilhante no dedo e um colar de cristal caído no pescoço.
Quando o colar saiu do esqueleto, o gelo em volta começou a sumir, e o que estava preso nele se soltou. Uma criatura de gelo, resistente a quase tudo, que atacou de dentro da cela. O colar continuou gelado no pulso de quem o pegou pelo resto da noite.
O grupo teve a chance de fugir e escolheu manter a criatura presa atrás da grade, socando o ferro enquanto eles atiravam fogo através das barras. Zoe caiu antes, derrubada pelo gás de um baú armadilhado, e teve que ser trazida de volta. Demoritos, o gnomo, desabou e esteve perto o bastante de morrer para que contassem duas vezes; nas duas ele voltou. Ele mesmo notou, sem drama, que toda vez que chegava perto de alguma coisa, caía.
A criatura caiu primeiro.
O brasão que muda tudo
A revista do covil acabou numa caixa com mantos e vestes marcados por uma lua crescente negra, junto de velas, água estranha e material de ritual.
Não era bando de estrada. Era culto de Takhisis, a deusa da noite e do ódio, proibido desde a Guerra das Almas. E a Guerra das Almas tinha acabado havia coisa de dez, quatorze anos.
Havia ainda uma pedra solta na parede, com uma alavanca atrás. Dormiram antes de puxar, no próprio covil, porque só havia uma entrada. Na segunda hora de descanso o alarme do mago disparou: passos correndo, alguém ainda escondido lá dentro. Terminaram o descanso mesmo assim, revezando vigília.
A alavanca abria uma sala decorada, de chefe. Dentro estava ele, sentado na beira da cama, cabeça baixa, rindo e chorando ao mesmo tempo. Sobre a mesa oval, papéis queimados até a cinza. E um dispositivo de cristal projetando a imagem da sala onde o grupo tinha acabado de dormir.
Ele os observou a noite inteira.
Atacou em pânico, errou, foi desarmado pelo bordão de Naerys, derrubado por sono e amarrado. Debaixo da cama, um pedaço de mapa que o fogo não pegou, marcando cinco lugares na província. Um deles era aquele covil. Os outros ficavam perto de Patina, perto de Tresca, e um deles em Egard, perto demais da capital para onde o grupo estava indo.
Em troca da vida e de documentos falsos, ele contou o que sabia. Existe um Lorde, e ele não sabe o nome. Um capitão que serve ao Lorde circula entre as bases, confere o progresso e deixa caixas com ordem expressa de nunca serem abertas.
Ele abriu uma. Viu o culto lá dentro. Tentou sair e não conseguiu.
O capitão tinha estado ali pela última vez havia dois meses. Antes disso, vinha toda semana.
Soltaram o homem disfarçado, com papéis forjados por Morty, rumo a Brasdel, três dias atrás na estrada, com a combinação de que ele nunca os tinha visto. Depois jogaram os corpos junto aos barris, furaram a cerveja para encharcar o chão e puseram fogo no covil, para que ninguém identificasse quem tinha morrido ali. Inclusive para dar cobertura à farsa dele.
Carregaram a carroça como mercadores, dois barris e dois baús, e seguiram para Patina.
Ninguém falou do sonho de novo.